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DESPEDIDA NA FESTA DE CASAMENTO

 

Data: 12/09/2009
Hora: 19:55:57
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 

O ano de 1997 chegou ao fim. E tive a certeza de que a minha amizade com Karina também. Não teve nenhuma ligação de feliz natal e nem de feliz ano novo. Também não teve presentes.
Consegui um emprego na secretaria de uma escola municipal em Jundiaí, cidade vizinha a Franco da Rocha. Com um grande esforço, consegui comprar uma simples casa não muito longe da escola.
Já estava começando a me acostumar sem a companhia de Karina quando recebi uma carta dela. E não era só uma carta.
O convite de casamento estava perfeito. Deixei – o de lado, peguei a carta – parecia mais um bilhete.

Jéferson,
Estou morrendo de saudades! O que aconteceu com a gente, hein?
Sinto falta das nossas conversas, das nossas brincadeiras.
Sei que esta magoado comigo, por isso me desculpe. Eu te amo como um grande amigo que você é. Da mesma maneira que você me ama, eu amo o Fabiano, tenta atender.
Dia 6 de maio vai ser um dia muito especial pra mim; gostaria que você estivesse presente. Tenho certeza que essa é a ultima coisa que te peço.

Um beijo de sua eterna amiga
Karina.


Quando dobrei a folha estava com as lágrimas escorrendo no rosto. Olhei novamente o convite. Uma gota de lágrima pingou sob o envelope. Karina estava certa aquela seria o ultimo pedido dela que eu realizaria.
Com muito esforço, comprei o presente e uma roupa nova pra mim. O casamento de Karina seria a nossa despedida havia me conformado com tal situação. Depois de casada eu não poderia chegar e convidar Karina para sairmos juntos, não ficaria bem.
Mas ao entrar na igreja, percebi que não seria fácil manter a calma e fingir que estava tudo bem.
A igreja Cristo Ressuscitado, localizada no centro de Franco da Rocha estava toda enfeitada. Na verdade, nunca tinha visto a igreja tão bonita. A decoração começou desde o lado de fora. O chão fora pintado do de branco. Na porta, rosas brancas cobriam todo o batente e seguiam os contornos dos bancos caprichosamente enfileirados. Um enorme tapete foi estendido da porta ao altar onde estavam os padrinhos da noiva e os padrinhos do noivo. Com uma batina branca e enfeites dourados o padre Adão e mais a frente o Fabiano. O noivo trajava um terno cinza, uma gravata também cinza e uma camisa branca. Parecia um tanto ansioso.
Ao entrar na matriz, fiz o vem a Jesus e me dirigi para a ultima fileira do lado direito. A igreja estava completamente lotada. Minutos depois Karina chegou. Estava mais linda do que nunca dentro do vestido de noiva. Com a grinalda na cabeça, Karina estava parecendo uma princesa dos contos de fadas. Ao vê – la entrar acompanhada de seu pai e ao som da marcha nupcial, vi que não seria fácil permanecer até o final da cerimônia. Baixei os olhos e comecei a fitar os meus sapatos. Agora seu Ademar entregava Karina para Fabiano.
-Meus caros fieis, estamos aqui reunidos em nome do pai do filho e do espírito santo, para celebrarmos a união de Fabiano Toledo e Karina Nascimento...
Senti a voz do padre Adão ir sumindo e diante dos meus olhos, surgir como um filme, Karina vestida de noiva acompanhada de seu pai. Eu estava no lugar de Fabiano, eu era o noivo.
Durante alguns minutos lutei para afastar aquela imagem da minha cabeça. Eu estava dentro da casa de Deus e estava cometendo um grande pecado desejando estar no lugar de Fabiano. Mas tal pensamento era mais forte do que eu...


Fui o primeiro a sair da igreja. Achei que estava chamando a atenção de mais. Havia deixado escapar um longo suspiro ao ver Karina colocando a aliança no dedo de Fabiano e desviei o olhar na hora do beijo, enquanto todos sorriam e aplaudiam o casal.
Caminhei lentamente até a casa dos meus pais. Chegando lá entrei no meu antigo quarto e fiquei olhando para o vazio. E não deixei de me perguntar: o que teria acontecido se eu tivesse aberto o meu coração para Karina logo que nos conhecemos? Será que ela teria se casado com Fabiano? Tarde demais para saber as respostas.
Troquei de roupa, peguei presente e fui para a festa. No portão, meu ainda falou:
-Você é jovem Jéferson. Vai encontrar alguém que te ame de verdade.
-Sim – foi o que eu consegui dizer.

Enquanto me dirigia para o salão tinha a impressão que o chão estava se abrindo aos meus pés. Na minha mão o presente de casamento de Karina. Seria o ultimo presente. Seria a ultima vez que falaria com ela. Seria também a ultima vez que a veria. Eu não teria mais lugar na vida de Karina. Agora ela era uma mulher casada, não teria mais aquela liberdade de outrora tão presente em nossas vidas.
O salão estava cheio. Não procurei saber, mas acho que tinha umas trezentas pessoas. Encontrei Karina tirando foto com umas amigas; quando me viu ela parou de sorrir, porém veio até onde eu estava.
-Que bom que você veio Jéferson. Eu estou muito contente em te ver – falou ela um pouco cautelosa.
-Me desculpe – disse eu – por não poder compartilhar essa felicidade que sei você esta sentindo. Eu não consigo você sabe...
-Eu não queria que fosse assim Jéferson.
-Eu também não.
Karina tirou os fios de cabelo que caiam sob o seu olho direito. Eu continuei:
-Eu não tenho mais lugar na sua vida Karina.
-Você sempre teve lugar na minha vida Jéferson! – rebateu ela começando a chorar.
-Não na sua vida de casada – devolvi sem me alterar. – Eu te amo jamais as coisas vão ser como antes.
Controlei a emoção que estava nascendo dentro de mim rapidamente. Ainda assim continuei:
-Eu sou fraco. Não vou conseguir suportar. Por isso é melhor nos afastarmos e...
Não terminei o que ia dizer. Karina se jogou no meu pescoço chorando. Foi um abraço apertado, nunca tínhamos feito aquilo: chorar um no ombro do outro. Quando havia algum problema, sempre resolvíamos numa boa. Era a primeira vez que aquilo acontecia. Não imaginava eu que dentro de alguns anos estaríamos chorando um no ombro do outro novamente.
-Você não pode chorar – disse eu afastando a de mim. – Hoje é um dia especial pra você. Aqui esta o seu presente – entreguei – lhe o presente e encerrei:- olha só Karina, felicidades pra você e... tchau.
Afastei-me rapidamente. Karina ainda me chamou:
-Jéferson espera!
-Mas eu não esperei. Continuei andando. No caminho avistei Fabiano. Fui até ele.
-Parabéns e felicidades – falei pegando em sua mão. – Agora eu preciso ir – acrescentei antes dele abrir a boca para agradecer. Ainda ouvi a voz de Karina me chamando:
-Jéferson espera!
Mas eu continuei indo decidido para a saída do salão. E eu estava achando que não mais veria Karina.
Uma vez na rua corri, queria ficar o mais longe possível daquele lugar – aquela festa não era pra mim. Atravessei a Estrada do Governo, passei por uma viela em frente ao colégio Befama e fui sair perto do posto de saúde, onde há três anos vi Karina pela primeira vez. Cheguei ao ponto de ônibus cansado e com os olhos vermelhos de chorar. No caminho de volta pra casa, encostei a cabeça na janela e fechei os olhos. Foi a primeira vez que senti aquele vazio enorme dentro de mim. Mas foi como li em um famoso livro: as pessoas não controlam seus destinos. E anos depois, eu voltei a sentir aquele vazio dentro de mim novamente.


A minha vida sofreu uma mudança brusca. Numa tentativa de esquecer de vez Karina comecei a fazer coisas que antes não fazia. Assistir a todos os jogos do mundial na França foi uma delas. Valia qualquer coisa para deixar a mente sempre ocupada. Passei a freqüentar mais a igreja, comprei alguns livros e finalmente consegui entrar para a faculdade de biologia.
Devo admitir que tal estratégia funcionou. Estava feliz com o meu emprego e com o salário. Em alguns fins de semana meus pais vinham me visitar junto com meu irmão. Tenho certeza que eles tinham noticias de Karina, mas eu não queria saber; então eles não diziam nada. Eu estava bem... Entretanto, quase cinco anos depois, Karina entrou novamente na minha vida.



 

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