Página Artigos

Decisão

 

Data: 14/02/2010
Hora: 20:34:55
Publicado por: vander.christian
Publicado na página: biblioteca_ler

 

Eu considerei um tremendo absurdo aquela pergunta. Mas respondi com educação.
-A Karina me chamou para que eu avaliasse a peça que ela escreveu.
-Vamos entrar – chamou Karina como se Aloísio e eu não estivéssemos conversando.
A situação não melhorou. Karina ficava diferente diante da presença de Aloísio, parecia só ter ouvidos para ele.
-Eu adorei o filme Sexo, Amor e Traição – dizia Karina.
-Realmente, o texto é de primeira – emendava Aloísio.
E eu parecendo uma besta, sentado só ouvindo. Pra não fazer nenhuma besteira, resolvi ir embora.
-Esta cedo Jéferson – falou Karina sorrindo de uma piada de Aloísio. – Fica mais um pouco.
-Não – afirmei me pondo de pé. – Eu estou um pouco cansado e... Eu não tenho mais nada pra fazer aqui.
-Certo, eu te acompanho até o portão.
Falei um até logo para Aloísio e segui Karina até a porta. No portão encontramos com dona Matilde, que vinha do supermercado. Quase perguntei a ela o que estava acontecendo quando ela me disse tchau sem olhar pra mim.
-Mãe, fica fazendo companhia para o Aloísio enquanto eu acompanho o Jéferson até o ponto – disse Karina na hora em que eu abri a boca para fazer a pergunta.
-Não precisa Karina – falei com cordialidade.
-Eu preciso te dizer uma coisa, vamos?


No caminho da casa de Karina até o ponto, conversamos sobre o atual prefeito que não estava trabalhando direito. Mas foi quando chegamos no ponto e ficamos esperando o ônibus, que Karina falou a “coisa” que ela queria me contar. No entanto, eu também tinha uma coisa para dizer a ela.
-Karina, antes de você me falar o que você tem pra me dizer, quero te fazer uma pergunta – fiz uma pequena pausa na qual Karina falou:
-Pode perguntar.
-Eu fiz alguma coisa de errado com a sua mãe? Por que se eu fiz, eu quero saber o que foi.
-É exatamente sobre isso que nós vamos conversar.
Karina falava baixo e parecia estar escolhendo as palavras. Uma nuvem tampou o sol; havia qualquer coisa no ar indicando que em breve teríamos chuva.
-Mamãe me contou que o povo está comentando – disse Karina parecendo tensa.
-E o que o povo esta comentando? – Perguntei sem entender nada.
-De nós dois.
-E o que o povo esta comentando exatamente de nós dois? Escuta Karina, você esta escondendo alguma coisa?
Eu já estava começando a ficar com raiva. Por que ela não dizia logo de uma vez o que estava acontecendo?
-O comentário do povo é que você e eu estamos namorando e que você jamais teria feito tudo o que fez por mim se não estivesse esperando que eu te desse algo em troca.
-Ah! Povo da mente pequena, sempre vendo mais do que o necessário.
Realmente aquela notícia me deixou numa situação incomoda. O ônibus chegou me restava apenas vinte minutos para conversar com Karina.
-E o que isso tem a ver com o fato de dona Matilde estar me tratando de maneira tão fria? - Perguntei.
-O povo esta dizendo que você esta me ajudando por interesse...
-E a sua mãe esta disposta a acreditar nas fofocas desse povo?! Ora, francamente Karina eu esperava mais da dona Matilde!
-E eu estou numa situação complicada – disse Karina como se eu não tivesse criticado a sua mãe. – O Aloísio veio me perguntar...
-Karina escuta – interrompi-a. – O que você, a sua mãe e o Aloísio têm que entender é o seguinte: isso tudo é fofoca, não vale a pena ficar dando atenção!
-O problema Jéferson é que essa fofoca partiu da boca de quem nos conhece há tempos são pessoas conhecidas, por isso, a minha mãe esta achando que você saiu por aí dizendo que estava tendo um caso comigo.
-E se fosse verdade? – Desafiei. – E se realmente estivéssemos namorando?
-Acontece Jéferson que o Aloísio...
-O que tem o Aloísio?! – Gritei. Algumas pessoas chagaram a olhar pra mim. – Eu não estou entendendo o que o Aloísio tem a ver com o que estamos discutindo. Olha aqui Karina, você me desculpe, mas esse Aloísio só o que esta fazendo é encher a sua cabeça e a cabeça da sua mãe com bobagens!
-Não fale assim do Aloísio!
-Eu falo porque é verdade!
As pessoas entraram no ônibus. Percebi que a minha conversa com Karina só estava começando.
-O Aloísio é um grande homem – disse Karina.
-Grande homem?! Grande, grande homem sim, você acha que ele tinha o direito de me fazer àquela pergunta? Aliás, que pergunta foi aquela? No mínimo quem tinha que fazer aquela pergunta era a sua mãe!
-É o jeito dele Jéferson...
-Eu não gosto daquele sujeito!
Senti que Karina não esperava ouvir aquilo. Ela demorou a se recuperar. O ônibus ligou o motor, minutos depois partiu, eu estava só com Karina.
-Eu sei por que você não gosta do Aloísio – afirmou Karina com rispidez. – O seu grande problema Jéferson, é achar que ninguém mais pode me ajudar. Você acha que eu só posso sair se for com você; que eu só tenho que ligar pra você; que eu só posso contar as novidades primeiro pra você; não é bem assim que as coisas funcionam, isso é egoísmo, sabia?
-Isso é o que você pensa de mim? – Falei azedo. – Depois de tudo que eu fiz, depois de tudo que passamos juntos; agora você vem me dizer que eu sou egoísta? Olha, eu achei que te conhecia... mais estava enganado.
-Me desculpe Jéferson, mas você pediu pra ouvir isso. E eu não estou dizendo que você é egoísta, porem às vezes você age como se ninguém mais fosse capaz de me ajudar a atravessar a rua, por exemplo.
-Realmente o Aloísio conseguiu transformar você...
-O Aloísio não tem nada a ver com o que estamos conversando aqui!
-Tem a ver sim! – Gritei me descontrolando completamente. – Você pensa que eu não percebi como você mudou depois que começou a andar com ele! – Karina se afastou um pouco e se se encostou ao muro que havia atrás de nós. – Presta atenção! – Peguei o seu braço fazendo-a ficar de frente pra mim.
-Solta o meu braço Jéferson! – Pediu ela se esquivando.
-Você fala em egoísmo, só que o Aloísio não é melhor do que ninguém! Ele não é perfeito pra você fingir que não tem mais ninguém por perto quando esta com ele! Esse Aloísio é uma má influência pra você!
-Jéferson, pára! Chega! Você já passou dos limites!
-Eu não tenho limites!
-Eu gosto do Aloísio e não vou ficar aqui, ouvindo você dizer cobras e lagartos sobre ele!
Ficamos em silêncio por um momento. Meus caros leitores, naquele sábado, as conseqüências daquela minha atitude – de não abrir o meu coração para Karina quando a conheci – chegou à frente dos meus olhos e ficou parada, para garantir que eu visse e não escapasse nenhum detalhe.
-Por que, Karina? – falei com a voz rouca. – Por que você esta fazendo isso comigo novamente? Será que vai ser sempre assim; pessoas vão entrar na sua vida e eu... vou continuar sendo apenas o seu amigo?
-Jéferson, eu não quero te enganar, eu não quero que você se engane comigo. Eu gosto de você, te admiro pra caramba, você é um homem especial, por isso eu não quero que você sofra por mim... Eu não tenho pra te dar o que você quer. Eu sinto muito ter que te falar isso, sei que é difícil, mas hoje... hoje quando terminei de escrever aquela peça e que pensei em te ligar, eu falei: senhor, me ajude, me dê forças, porque hoje eu vou dizer ao Jéferson o que eu deveria ter falado desde o dia em que me casei com o Fabiano. Não há sentimento... eu sinto muito, mas não há sentimento Jéferson. Por favor, não me peça pra te dar o que eu tenho não tenho.
Demorou um pouco para que eu absorvesse o significado daquelas palavras.
-Você ama o Aloísio? – Perguntei quase num sussurro.
-Existe uma grande atração, talvez essa atração se acabe ou se transforme em amor. – Karina respondeu com um tom de quem não entende o motivo daquela pergunta.
-Então você acha que eu só estou do seu lado esse tempo todo, por que amo você? E dessa forma, ficando do seu lado, te ajudando, você me aceitaria como homem? Quer dizer que eu fiz tudo isso por interesse?
Karina ficou calada. Eu continuei:
-Só que você gostou, a sua mãe gostou, todo mundo dizia que era bom pra você ter um amigo que estivesse sempre do seu lado e agora, na primeira oportunidade inventam essas fofocas e você acredita!
-Eu só quero que você não entenda errado Jéferson. Eu não estou dizendo que é pra você se afastar de mim e que eu não sei reconhecer o que você fez por mim. Só estou dizendo que se você fez tudo para me ajudar esperando ganhar em troca, foi tudo em vão. Essas fofocas podem ser verdadeiras sim...
-Não me conformo que você acredita numa coisa dessas. Verdadeiras uma ova...
-Jéferson, escuta, quando você chegar na sua casa pense sobre isso que nós conversamos aqui; talvez essas fofocas são verdadeiras sim. Será que lá no fundo você não esta esperando algo em troca? Será que se você não me amasse como mulher você teria ficado do meu lado, teria feito tudo que fez por mim? Ou teria se afastado como muita gente fez quando eu perdi a visão? Esta na hora de tudo ficar no seu devido lugar... Eu preciso viver a minha vida, e você precisa viver a sua. Eu não quero atrasar a sua vida e nem quero atrasar a minha por sua causa. E depois, misturar amizade com amor pode estragar a nossa relação.
Quando Karina parou de falar, eu cheguei bem perto dela e falei:
-A nossa relação já esta estragada.
Virei as costas e saí. Não tive coragem de olhar para trás. Fui caminhar no centro, mas a sensação era que não tinha chão para por os meus pés. Não demorou nada a chuva caiu...


Aquilo pra mim foi o fim da picada. Enquanto observava a paisagem pela janela do ônibus, eu já estava com um plano dentro da minha cabeça. Seria difícil, mas era preciso ser feito.
Meus pensamentos voltaram no tempo. Voltaram exatamente na época em que eu ensaiava para dizer à Karina o quanto eu a amava. Foram muitas às vezes em que eu saía de casa decidido a ir a casa dela e me declarar, mas me faltava coragem. E quando alguém me perguntava se rolava um clima entre nós, eu desconversava dizendo que era impossível rolar alguma coisa entre a gente, pois éramos grandes amigos. As conseqüências daquela minha atitude demoraram mais veio, e eu só via uma única saída...


No domingo de manhã fui à casa de mamãe lhe avisar da decisão que eu tomara.
-Mãe eu vou embora.
-Você vai o quê?
-Embora, vou me mudar daqui – reforcei sem hesitar.
-Se mudar pra onde e por quê?
-Não da mais mãe. Eu não posso continuar vivendo aqui, a situação entre eu a Karina não anda nada bem.
-E isso é motivo pra você se mudar?
Senti que não seria tão fácil conforme imaginei. Mamãe era do tipo de pessoa que sempre apresenta um argumento, ainda que isso pareça impossível.
-Mãe, eu acho melhor te explicar o que esta acontecendo.
-Eu sei o que esta acontecendo – disse mamãe me surpreendendo. – Você esta com ciúmes da Karina com o Aloísio. E eu te digo que isso é uma bobagem, por que...
-Eu amo a Karina, mãe. Presumo que a senhora também sabe disso.
-Será que é mesmo amor filho?
-Com certeza. E ontem ela me disse que não pode me oferecer algo que não tem dentro do seu coração, que é amor por mim. Pela primeira vez durante todos esses anos, eu vi que esse amor que tenho por ela, me faz sofrer, me deixa fraco... Eu não quero mais isso pra mim.
Mamãe me encarou. Havia muito tempo em que não conversávamos um assunto sério. Notei que ela estava bem velha, conseqüência dos anos que passaram rápido demais. Apesar do olhar penetrante que ela me lançou, senti que podia contar com a sua ajuda e compreensão.
-Pra onde você pretende ir? – Perguntou mamãe ainda com o olhar penetrante sobre mim.
-Eu vou pra casa da tia Fernanda. Mas eu não vou dizer à Karina que vou embora.
-Como?
-Não quero mais vê-la. Não quero mais falar com ela. Pior me despedir dela... Não quero que ela saiba que vou embora. Espero que a senhora me entenda.
Mamãe se levantou. Deu-me as costas e com as mãos na cintura falou:
-Então nós temos um problema filho. Eu não vou deixar que você faça isso.


publicado por: cleudismar da silva

 

Notícias

 

Entre em contato

 

Comentários