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TRÊS AMORES
| Data: | 27/02/2010 |
| Hora: | 18:01:57 |
| Publicado por: | vander.christian |
| Publicado na página: | biblioteca_ler |
CAPÍTULO 17
TRÊS AMORES
Não foi fácil. Ir embora exigiu de mim muita paciência e determinação. Tive que responder a todos os porquês do pessoal na faculdade. No trabalho, todos pareciam mais preocupados do que eu com o fato de não obter sucesso em outro estado. Explicar para os amigos era mais difícil. Ainda que eles dissessem que me compreendiam e respeitavam a minha decisão, havia um quê de desapontamento em seus argumentos e conselhos. Mas eu estava determinado a seguir em frente.
No meu aniversario de vinte e nove anos, Karina me deu de presente o CD da banda Skank. Dentro do encarte do CD havia um bilhete:
FELIZ ANIVERSÁRIO JÉFERSON!
ESPERO TE DAR MUITOS E MUITOS PRESENTES.
NÃO VÁ EMBORA, POR FAVOR!
E então vinha a fraqueza. E dava vontade de cancelar tudo. Dava vontade de desfazer as malas, chegar em Karina e dizer que ela não precisava mais mandar bilhetes me pedindo que eu não fosse embora. Com certeza, ir partir para tentar esquecer Karina era uma coisa que eu não contava ter que fazer. Mas eu não podia fraquejar, afinal de contas eu passara aquele tempo todo sendo um sujeito fraco. Aquele era o momento de assumir uma outra postura. Antes, porém...
O ano de 2008 avançou de maneira assustadora. Quando o mês de agosto chegou, eu me vi novamente como no ano de 1997 – a Karina me procurando e eu não dando a mínima. Isso porque, o dia da minha partida estava chagando. Eu viajaria no dia 16 para o estado do Espírito do Santos.
Dois dias antes, na festa de lançamento do CD da banda Ponto de Vista, Karina não largou do meu pé, quase nem conversou com Aloísio. Mais nada daquilo me fez mudar de idéia...
Estava tudo pronto. O sol estava mais forte comparado aos outros anos. Havia qualquer coisa no ar indicando que aquele sábado seria diferente.
Me despedi de papai e mamãe às 10:4min. Na noite anterior, deixei o trabalho e fui direto para a casa de meus pais. Foi a última noite que passei com eles.
Cheguei ao teatro Gloria às 12h10min. Para a minha surpresa, já havia um grande número de pessoas na platéia. Sentei em uma cadeira na quinta fileira. Estava fazendo de tudo para ficar calmo, mas estava difícil.
Seria a estréia da peça escrita por Karina. De alguma forma, eu sentia que deveria estar lá; que eu deveria me sentar nas cadeiras do teatro e assistir a peça até o final.
Minutos depois, avistei Karina com um grupo de pessoas. Ela parecia estar explicando algo para um homem de meia-idade. Karina usava um vestido preto, tinha o cabelo solto – estava linda.
Depois de muitos murmúrios e muita expectativa, as cortinas se abriram e a exibição da peça feita por Karina, teve início.
Da minha posição, não dava para ver Karina, embora eu soubesse que ela estava junto com os cegos que ela convidara. Nas poucas vezes em que avistei Karina, antes da peça começar a ser exibida, senti uma pontada no peito; pontada esta causada pelo pensamento do que eu iria fazer ao sair do teatro. Naquela altura, eu já estava sendo egoísta como dissera Karina, uma vez.
Uma hora e meia depois, a platéia prorrompeu-se em aplausos, os atores agradeceram o carinho do público e a cortina se fechou. Foi então que aconteceram muitas coisas.
O homem de meia-idade, que eu avistara conversando com Karina, subiu no palco com um microfone na mão e começou o seu discurso. Ele era coordenador de um projeto chamado Teatro em Nossas Vidas. Aqueles atores que haviam representado a peça Dononça Faz Quitutes, segundo ele, eram crianças de rua. Com doações, muita ajuda e força de vontade surgiu o projeto Teatro em Nossas Vidas.
-Tenho muito que agradecer a todas as pessoas que assumiram esse compromisso junto comigo – encerrou. O povo aplaudiu. – Muito obrigado. Gostaria de chamar aqui no palco, a autora dessa peça que vocês acabaram de assistir. Tenha a bondade de subir até aqui Karina, por favor, e falar um pouco sobre o seu trabalho.
Houve novamente uma leva de aplausos no momento em que seu Ademar levou Karina ao palco.
Fiquei feliz por ver aquela cena. Por que a Karina que surgiu depois do acidente, não demonstrava nem de longe que um dia estaria ali, empunhando um microfone e sendo aplaudida de pé por aquelas pessoas que nunca a viram antes.
-É difícil falar – iniciou ela nervosa. – Sei que estão todos olhando pra mim e eu fico um pouco nervosa com isso...
Ao ouvir essas palavras eu sorri. Na verdade ela não estava um pouco nervosa – mas sim muito nervosa.
-Mesmo assim – continuou ela – sinto que esse é o momento de falar um pouco da minha vida.
Os cochichos cessaram. Estavam todos de olhos e ouvidos atentos em Karina. E ela ganhou firmeza na voz conforme falava.
-Sempre gostei de fazer peças teatrais. E esse era o meu sonho; assistir a apresentação, ver os atores em cena. Isso tudo que vocês viram aqui é o resultado de um trabalho maravilhoso desses alunos do projeto Teatro em Nossas Vidas. Você Manoel esta de parabéns.
O homem de meia-idade sorriu quando Karina mencionou o seu nome.
-Eu queria também agradecer a todos vocês que estão aqui, que confiaram no meu trabalho e veio assistir. – Karina fez uma pausa. Acredito que ela surpreendeu a todos nós com aquele discurso. Olhei para o relógio e senti uma pontada no peito, pois dali a algumas horas eu estaria partindo para bem longe de Karina. O som da voz dela me fez voltar a atenção para as suas palavras.
-Muita gente não acreditou que um dia eu chegaria aqui – disse Karina. – Eu mesma cheguei a duvidar disso. Em 2003 a minha vida mudou por completo. Eu perdi o meu marido em um acidente de avião e perdi a visão também... E todos os planos e sonhos, eles se perderam. O mundo desabou em minha cabeça, perdi a vontade de viver, não conseguia planejar mais nada, eu me sentia incapaz de voltar de ater sonhos, de pensar no futuro; fiquei sem perspectiva, desacreditada de tudo...
Karina tomou fôlego. Dona Matilde chorava abraçada ao marido. Puxei na minha memória e não consegui me lembrar de ter visto ou ouvido Karina falar sobre o seu passado para três ou mais pessoas ao mesmo tempo. Ela enxugou as lágrimas com a própria mão e continuou:
-Estou chorando porque ainda dói falar desse assunto, porém não tenho medo de falar, eu venci esse medo e a dor... bem, a dor... ela já foi mais forte, graças a Deus eu consegui ameniza-la. E vocês sabem por que eu consegui vencer o medo de falar sobre o passado? Sabem por que a dor, que era enorme, que me dominava por completa se tornou amena? Porque em meio a dor, em meio ao medo, havia três amores. O meu pai – aqui a voz de Karina falhou – ele... ele não saia para trabalhar sem antes me dar um beijo, pedir que eu me cuidasse e tivesse juízo, sempre muito otimista, o meu pai. Sei que ele fazia um enorme esforço para falar comigo com aquele tom de voz alegre, mas sei que no fundo ele estava sofrendo muito, entretanto eu não precisava de alguém do meu lado que chegasse chorando, que tivesse pena de mim, eu não precisava de nada disso – Karina engoliu as salivas que se acumularam na boca prosseguiu: - E quando meu pai voltava do serviço ia direto perguntar como eu estava; pra falar de Deus, dizer que ele nunca fecha uma porta sem antes ter aberto outra. Um grande beijo pai. Eu te amo demais. E a minha mãe... Nossa, ela vivia pra mim. A minha dor era a dor dela.
Percebi que várias pessoas ao meu redor estavam chorando. Eu também já estava emocionado. Karina continuou a falar de sua mãe:
-Eu acho que se fosse possível ela queria estar em meu lugar. Eu lembro que, não tenho vergonha de dizer, eu cheguei a perguntar pra ela se algum dia algum rapaz iria olhar pra mim, porque a sensação que dava era que eu estava horrível, eu não tinha a mínima idéia de como eu estava, não conseguia me ver bonita. E a minha mãe falou com todas as letras que eu continuava linda como uma princesa. E na palavra dela eu acreditava. Por isso, eu quero chamar aqui no palco, a minha mãe e o meu pai, para que todos vocês conheçam os melhores pais do mundo!
Emocionados, dona Matilde e seu Ademar foram até onde a filha estava. Os três se tornaram um só, em um abraço forte sob os olhares e aplausos do público.
O que veio depois eu não esperava. O que veio depois colocou em dúvida a minha decisão de fugir para outro lugar que visse ou ouvisse falar em Karina.
A minha mente estava cheia de pensamentos que nem toquei quando Karina disse “havia três amores”, que o terceiro amor só podia ser eu.
-O outro amor – falou Karina se afastando de seus pais – é uma pessoa que... esta comigo há treze anos. E já foram tantos os momentos em que um ajudou o outro. Apesar de que ele me ajudou mais do que eu ajudei ele.
Senti o meu rosto esquentar. Dona Matilde, um pouco atrás da filha, me encarava. Me encarava como entes, sem aquele olhar cheio de censura que ela me lançara quando me viu abraçar Karina um dia. Voltei a sentir afeição por ela. Novamente.
-Esse homem, que se chama Jéferson, se tornou uma pessoa de extrema importância em minha vida. Tornou-se uma pessoa importante na minha vida a partir de 04 de abril de 1995. E quase dez anos depois, quando eu perdi a visão e o meu marido, ele continuou do meu lado, me dando força.
Karina voltou a chorar. E dos meus olhos também começaram a brotar lágrimas.
-Muitas pessoas se afastaram de mim quando eu fiquei cega; pessoas que se diziam ser meus amigos. E o Jéferson não saiu do meu lado um só instante. No primeiro dia que nós nos vimos depois do acidente, eu falei que havia perdido tudo, e ele me respondeu o seguinte: “eu estou aqui, Karina.” E vou te ajudar a viver – Karina fez uma pequena pausa. Algumas pessoas olhavam pra mim, outras permaneciam em silêncio, ouvindo atentamente as palavras de Karina. – Naquele momento – continuou ela – eu estava precisando tanto de um amigo que me dissesse alguma coisa, uma palavra que me confortasse, que me desse um abraço.
“E Jéferson estava ali, do meu lado. Estava do meu lado quando eu andei pela primeira vez na rua segurando uma bengala. Estava comigo no meu primeiro contato com outras pessoas cegas. O Jéferson me convidava para ir ao cinema, comprar livros, ir a igreja, comer pizza, ele fazia de tudo para que eu me sentisse bem, fazia de tudo para que eu levasse a vida, se não igual, mas parecida com a de antes do acidente. Porque a vida precisava continuar. O Fabiano morrera, eu fiquei sem enxergar, mas estava viva! Foi difícil entender tudo isso...
Eu abaixei a cabeça e comecei a refletir sobre o que Karina estava dizendo. Ainda que ela desse todos os méritos para os seus pais ou para mim, a sua força de vontade e determinação contribuirão para tamanha superação. A menção do meu nome fez com que eu voltasse a atenção para Karina, que dizia:
-Nós passamos um natal no interior do estado de São Paulo e havia uma rua que estava toda enfeitada, e eu me lembro que o Jéferson falou: “eu queria que você estivesse enxergando só para ver como esta bonito aqui.” Então ele descreveu como eram os enfeites de natal. Era como se eu estivesse enxergando com os olhos dele.
Karina secou as lágrimas com o lenço que o seu pai lhe dera. Depois falou:
-Tenho certeza que o Jéferson esta aqui. E eu só estou dizendo tudo isso porque jamais vou esquecer um só instante que passamos juntos... Jéferson, eu não tenho nem palavra pra te agradecer, eu poderia ficar aqui tentando te agradecer, mas sei que não vou conseguir... Eu queria te fazer um pedido, e quero que saiba que ao atender este meu pedido, você vai estar me fazendo a pessoa mais feliz do mundo. Eu espero que, do fundo do meu coração, que você continue do meu lado até quando Deus quiser e sendo assim, espero que seja pro resto da vida.
Karina se calou. Não sei se ela iria me chamar para subir no palco como fizera com os seus pais. O fato é que quando ela terminou de falar, eu me levantei, atravessei o corredor e subi no palco se ser convidado. Lá abracei Karina. Abracei-a como há cinco anos, quando ela disse ter perdido tudo. Havia algo naquele abraço, pois seria o último abraço. Havia também algo nas lágrimas, algo que eu não conseguia explicar. Acho que não tinha explicação, não adiantava nem tentar buscar...
-Por quê? – Dizia uma voz dentro da minha cabeça. – Por quê? Justo naquele dia, que eu estava pronto para ir embora, a Karina resolveu dizer coisas tão bonitas. Por que ela plantou aquela semente dentro do meu peito? Uma semente de dúvida. Será que realmente ela não me amava? Será que ela realmente na sentia nada por mim? Tarde demais para saber as respostas.
E ela havia pedido que eu ficasse do seu lado até quando Deus quisesse. Ele não queria mais.
Quando todos foram cumprimentar a Karina eu afastei-me para a direção oposta. O meu estômago começou a revirar, o coração batia acelerado como se eu tivesse corrido sem pausa alguma. Dispensei o drink e rumei para a saída do teatro. De repente a voz de Karina chegou aos meus ouvidos como um sino que toca uma vez, mas devido ao eco fica parecendo que tocou mais de uma vez.
-Aonde você vai Jéferson?
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