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Lembranças

Publicado por: vander.christian
Data: 19/06/2010
Hora: 20:01:56
Página: biblioteca_ler
Livro KARINA - A MINHA HISTÓRIA
Capítulo 21
Leituras: 166

 

Senti a emoção me dominar por dentro quando vi Karina sair na porta. Ela usava um conjunto de moletom cinza e uma sandália branca. A sua aparência era ótima. Parecia que nem havia se passado doze anos. Os cabelos estavam solto do jeito que ela mais gostava de usar – do jeito que eu mais gostava de vê-la.
E foi como se eu não tivesse ido embora. Como se eu nunca tivesse a abandonado. A impressão era que eu havia ficado só um uns quinze dias sem vê-la, mas falando com ela todos os dias. Foi difícil de assimilar que a última vez que vi aquele rosto ele ficou olhando para mim no final de um corredor à espera que eu voltasse.
Olhei no rosto de Karina. Sua fisionomia era indecifrável. Parecia que de alguma forma, ela sabia que era eu que estava ali.
-Karina, sou eu, o Jéferson – falei com uma grande expectativa. Ela protegia os olhos com óculos escuro.
Ela não falou imediatamente. Demorou um pouco. Acho que foi para se recuperar da surpresa.
-Eu não acredito que você resolveu aparecer! – Exclamou ela abrindo um grande sorriso.
Sem receber convite algum, eu abri o portão e entrei. Quando abracei Karina ela já estava chorando.
Aquele seria o momento da verdade. Havia muitas coisas a serem ditas, havia muitas coisas a serem ouvidas. Eu sabia que quando Karina me soltasse, mais cedo ou mais tarde, viria uma pergunta... Aquele era o momento de saber as conseqüências daquela minha decisão... Conseqüências daquela minha fuga.
-Não acredito que você esta aqui! – Disse Karina me soltando. – Tanto tempo! Agora aparece assim, de surpresa! Uma ótima surpresa! Vem, vamos entrar.
Entrei em uma sala totalmente diferente daquela sala do tempo em que eu ia visitar Karina. Na sala de agora, havia mais telas de pinturas na parede e menos retratos dos tios e avós de Karina. As telas exibiam paisagens e diversas faces masculinas e femininas. E pude perceber também que a sala não era assim tão grande como a da antiga casa. Tudo indicava que dona Matilde e seu Ademar só queriam um cantinho para eles viver sossegados; nada de cômodo grande, escadas e corredores espalhados pela casa, somente o básico: sala, quarto, cozinha, banheiro e uma pequena área.
Assim que entrei, localizei dona Matilde sentada numa poltrona folheando uma revista. Retirou os óculos, sorriu e me deu um abraço de quebrar as costelas. Dona Matilde estava bem. Os seus cabelos ainda não estavam todo branco o que me levou a imaginar que ela andara passando tinta numa tentativa de acabar com os fios brancos.
Me acomodei em uma confortável poltrona ao lado da menina que viera me atender. E começamos a conversar. Falamos de tudo um pouco. Relembramos como era a cidade antes, o que mudara e o que não mudara, para onde foi o vizinho que morava do lado direito e o que aconteceu com o vizinho que morava do lado esquerdo... Ficamos mais de duas horas colocando a conversa em dia. Até que dona Matilde saiu dizendo que ia à casa de uma amiga e deixou-me sozinho com Karina.
-Você esta com sorte Jéferson, muita sorte. Angélica, minha filha, pega um prato com bolachas de nata e uma xícara com café...
-Não acredito! Tem bolacha de nata com goiabada no meio?!
-Sim.
-Olha só; quanto tempo que eu não como bolacha de nata.
Angélica saiu da sala. Minutos depois voltou, trazendo meia-duzia de bolachas de nata e uma xícara com café.
-Eu e mamãe fizemos para o papai – disse Karina. – Foi bom pra ele, sabe.
Segundo Karina e dona Matilde me contaram, seu Ademar estava queixando-se de dores no peito e tontura. Por isso Karina viera passar uns dias ali em Franco da Rocha, para ajudar a mãe e o seu pai.
-E agora onde ele esta? – Perguntei.
-Saiu com o Aloísio.
Seguindo essas palavras de Karina reinou o silêncio. Não sei se foi impressão minha, mas o nome Aloísio me despertou como de um sonho; trouxe-me de volta a realidade. Não adiantava eu ficar fingindo que o tempo não passara... Angélica então, quebrou o silêncio.
-Mãe, o pai vai trazer aquela boneca que eu falei, não vai? – Disse ela para a sua mãe.
-Eu não sei filha. E nós já conversamos sobre isso, lembra?
-Ah, mãe...
-Ela esta querendo aquela boneca japonesa de um metro de cumprimento que dança, canta e fala – explicou Karina passando a mão no cabelo da filha. – Não sei por que ela quer tanta boneca – disse ainda Karina, - também o Aloísio quer comprar tudo que ela pede...
Novamente reinou o silêncio.
O que lembrou o passado, quando o nome do primeiro marido de Karina entrava nas nossas conversas sempre vinha um silêncio constrangedor. Mas eu já não me importava em ouvir o nome Aloísio; o problema é que ouvir a Karina dizer “o Aloísio quer comprar tudo que ela quer” significava falar da vida de casada dela e depois da minha vida, então logo estaríamos falando do passado e eu estava tentando adiar esse momento falando de coisas do presente, deixando de lado o passado, embora eu soubesse que Karina não me deixaria sair dali sem me cobrar uma explicação por te-la abandonado.
-Como você esta? – Perguntou ela finalmente parando de alisar o cabelo da filha.
Terminei com o resto de café que estava na xícara antes de responder a pergunta.
-Estou bem, levando a vida sossegado, quer dizer, sossegado em partes, afinal de contas dar aula não é nada sossegado, mas... Eu escolhi dar aula, então não posso me queixar muito, não é.
-Posso levar a xícara e o prato seu Jéferson? – Perguntou Angélica.
-Pode sim – falei sorrindo e imaginando como teria sido Karina aos oito anos de idade.
Angélica pegou a xícara e o prato da minha mão; quando já estava atravessando a sala perguntou:
-Mãe, eu posso ligar a T.Vdo quarto da vó?
-Pode, mas não bagunça o lençol da cama dela, por favor. Você sabe que ela não gosta.
-Esta bem, mãe.
-A sua filha é muito educada – disse eu sorrindo.
-Uma pouco respondona – afirmou Karina cruzando as pernas.
O meu coração voltou a bater acelerado. Estávamos sozinhos de vez. Estava chegando a hora...
-Você não mudou nada – comentou Karina com um leve sorriso. – Ah, mas a sua barba já esta ficando grisalha.
Passei a mão de leve em meu rosto. A barba não estava grande, mas inda assim era visível de longe. Só então me dei conta de uma coisa...
- Espera aí, como você sabe que a minha barba esta ficando grisalha?
Karina dava risada. Eu não estava entendendo nada.
-Karina, você... Você esta enxergando?
-Sim.
-Nossa mais...
-Os óculos que estou usando – disse Karina parando de sorrir – foram desenvolvidos no Kanáda para as pessoas que perderam a visão em acidentes, ou seja, pessoas que enxergavam mas devido ao acidente ficaram cegas. Há um chipe em cada lente que estimula a retina e a própria lente ajuda a definir as imagens.
-Legal isso é muito interessante. Agora eu chego aqui depois de tanto tempo ficamos conversando sobre um monte de coisas e você não me fala nada? Isso você deveria ter me falado assim cheguei!
-Estava me divertindo um pouco.
-Como assim se divertindo?
-Vendo o teu jeito. Parece que você esta com medo de alguma coisa, esta inventando assunto não sei por que...
-Impressão sua. Estou muito feliz por você estar enxergando novamente; quem diria que você voltaria a enxergar...
-É quem diria... É a tecnologia.
Comecei a me lembrar de uma aluna cega que tinha na escola que eu dava aula. O seu grande sonho era voltar a enxergar para jogar vôlei. Devido as suas condições financeiras, com certeza ela jamais teria uns óculos daquele.
-É a tecnologia... – falei olhando para a Karina.
-Pois é, Jéferson, eu estou vendo o seu rosto novamente. O rosto que eu nunca esqueci como eram os seus traços, a sua beleza... O rosto que eu cheguei a imaginar que jamais tornaria e ver.
Fiquei olhando para Karina em silêncio. Ela continuou:
-Rosto que me abandonou. Me abandonou duas vezes. As duas vezes foram em dias que poderiam ser considerados os dias mais felizes da minha vida – Karina baixou a cabeça. Falava com certo rancor na voz. – Por quê? – Aqui ela levantou a cabeça novamente e já estava chorando. – Por que, Jéferson? Por que você sumiu nos dias em que eu estava me sentindo feliz? Por quê?
-Karina, eu... é... digamos que sumir era a única saída que eu via, não me restava outra alternativa.
-Por que você foi embora daquela maneira, Jéferson? Aquele dia, no teatro, eu estava tão feliz... Tinha finalmente chegado a... Eu tinha chegado a conclusão que por mais que eu tentasse mentir, que por mais que dissesse não; mais eu te amava!
A minha boca se abriu, eu quis dizer alguma coisa, não consegui. Karina falou, chorando, aquilo que parecia estar entalado dentro de sua garganta.
-E cheguei a essa conclusão no dia em que você disse que iria embora. E comecei a imaginar como seria o meu sábado, o meu domingo; como seria a minha semana... Como seria a minha vida sem você, Jéferson. E eu descobri que eu não seria nada sem você! A primeira vez que você foi embora eu suportei, mas uma outra vez... eu não agüentaria.
Por um momento eu desviei o olhar que mantinha sobre Karina. E fitei o chão e comecei a imaginar Karina descobrindo que sempre me amara. No passado eu me preocupara só com o meu sofrimento, que nunca parei para pensar em como ela estava se sentindo com aquela situação. Não deveria ser fácil... Não deve ter sido fácil para ela se casar com Fabiano depois daquela minha declaração, afinal de contas eu era como um irmão pra ela. Depois veio a compreensão de seus sentimentos para comigo. E eu já estava longe de Franco da Rocha – a sua mente deve ter virado uma tremenda confusão. Karina deve ter sentido culpa arrependimento, raiva... Na verdade, eu nunca parei para pensar em como Karina se sentira com aquela minha declaração.
-“Sinto muito, Jéferson, mas dessa vez eu não posso te ajudar”, dissera ela, e eu me zanguei, mas o que Karina poderia fazer para me ajudar? De repente, aquela era a melhor coisa a ser feita: dizer que não podia me ajudar.
E tinha o episódio do beijo, porém tive o pensamento interrompido por Karina.
-Naquele dia no teatro – levantei os olhos para encará-la atentamente – quando falei para todos de você... eu quase me declarei na frente daquelas pessoas.
Mesmo chorando Karina esboçou um sorriso. Mexia com a mão direita a aliança no dedo da mão esquerda.
-Não me declarei na frente de todas aquelas pessoas porque eu queria fazer diferente; queria... queria que estivéssemos a sós, que fosse um momento só nosso. Deixei pra te procurar durante o coquetel; um grande erro da minha parte – Karina dizia com amargura na voz. Lá fora na rua, um motoqueiro passou em alta velocidade fazendo um forte barulho interrompendo assim o silêncio que se instalara na sala após a ultima palavra de Karina. Quando o barulho da moto desapareceu, ela continuou a falar ainda em tom amargurado. – Você me enganou, dizendo que aquele corredor dava para os banheiros, eu estava desconfiada que tivesse alguma coisa errada, mas você disse que só fora pego de surpresa pelo meu depoimento, disse que estava emocionado com as minhas palavras...
Na minha cabeça veio a imagem daquele dia, fora sem dúvida um dos piores da minha vida.
-Lembra Jéferson? – Disse Karina se mexendo na poltrona. – Lembra que eu ainda falei que você podia ir ao banheiro, que nós conversaríamos melhor depois! Aí você me abraçou e eu tive a certeza de que havia algo de errado! Você no banheiro – Karina deu um longo suspiro antes de continuar: - Fiquei te esperando, chamei por você... Não veio resposta alguma. Por quê? Por que você fez aquilo? FALA! Pode falar Jéferson, que eu mereci tudo aquilo, pode falar que você passou onze anos à minha espera por isso me deixou lá, naquele corredor que na verdade dava para a saída do teatro e não para os banheiros! FALA! Não fica aí calado fazendo eu me sentir pior!
Levantei e fui me sentar ao lado de Karina, sem a mínima idéia do que dizer.
-Eu... Olha só, Karina, fazer aquilo, te deixar ali naquele corredor... pode ter certeza, não foi fácil. Doeu muito, talvez ainda doa. Mas, é como eu disse, eu não via outra saída se não fugir... Sinto falar dessa maneira com você, mas você demorou a descobrir que me amava.
Queria ter dito outra coisa, porém naquela hora só veio àquelas palavras e então eu me calei em seguida. E Karina recomeçou a falar como se eu não tivesse dito nada.
-Cerca de uma hora depois que você partiu e depois de ter gritado o seu nome varias vezes, a Marcela chegou me chamando para ir junto do pessoal e eu falei não, estou esperando o meu amigo, ele esta no banheiro, só não sei por que esta demorando tanto. Pra onde ele foi? Perguntou a Marcela. Foi pra lá, disse eu apontando para o sentido que você saiu. Aí a Marcela falou que naquele corredor não havia banheiros – aquele corredor dava para a saída do teatro. Veio a compreensão e eu queria estar enganada, queria que nada daquilo tivesse acontecendo! Eu liguei pra sua mãe... Ela confirmou tudo.
Karina passou as mãos nos olhos numa tentativa de enxugar as lágrimas – finalmente tirara os óculos. Eu passei a mão de leve em seus cabelos. Ela começou falar novamente.
-Estou chorando por que... Eu pedi tanto que você não fosse embora... Quando a sua mãe disse que você já tinha partido, o mundo desabou na minha cabeça. Um vazio enorme tomou conta do meu ser, sabe. Você não ia estar mais do meu lado, me avisando que tinha um buraco a frente, eu não ia mais receber as suas visitas, você não ia me ligar mais. Na verdade, eu só tinha você; tudo que fazia era pensando em você, em sua opinião, você era uma parte de mim, Jéferson. Eu tinha tudo isso, e de repente estava só...
-Eu nunca quis te deixar sozinha, Karina, acredite.
Fiquei de pé. Estava perto da janela de onde era possível ver a rua movimentada que havia logo a frente da casa. Senti que era hora de falar e de Karina ouvir.
-Entendo que você sofreu – falei sério. – Mas esse sofrimento que você sentiu não pode ser comparado ao meu sofrimento. Você não pode imaginar como é Karina gostar de alguém e esse alguém chegar para você e começar a falar de como foi o dia com o namorado ou marido. Você não pode imaginar como eu sofri quando você começava a falar do Fabiano... É uma agonia que... uma agonia sem fim. E quando você estava com o Aloísio era a mesma coisa; eu não queria ouvir falar no seu nome para não ter que ficar sofrendo, mas ao mesmo tempo tudo que eu mais queria era ouvir a tua voz, ter noticias de você estar ao seu lado. Queria estar ao seu lado quando você estivesse feliz, quando estivesse triste, quando estivesse bem ou doente... Queria estar junto de você sempre...
Senti que a emoção estava me dominando. E eu deixei ela me dominar.
-Não estou dizendo que sofri mais que você – continuei a falar. – É só que eu senti amor por você desde o primeiro dia que te vi e junto ficou a dor, até o dia que fui embora. Pode ter certeza que eu não teria escolhido fugir se o meu amor fosse correspondido. Eu teria ficado e vivido esse amor com toda intensidade... Mas não foi assim. Você não me deixou escolha.
Karina retirou os fios de cabelo que lhe caiam na frente dos olhos. Ficou calada. Absorvendo os significados das minhas palavras.
-Nunca quis ir embora – disse eu voltando a me sentar ao seu lado. – Mas se eu não fosse embora não sei o que poderia acontecer. Eu poderia fazer até uma bobagem, sabe. Quando sentimos que o amor não é correspondido não somos responsáveis pelos nossos atos. Por isso fugi porque estava cansado de ser sempre um amigo pra você. Estava cansado de ficar correndo atrás de uma coisa que eu sabia que nunca eu iria ter. O amor é construído por duas pessoas, não por uma... Eu sabia disso o tempo todo, mas não aceitava. Não foi fácil te deixar naquele corredor sozinha e saber que não mais iria te ver. Mais a dor caiu na rotina e eu fiquei bem sem você. A ferida dentro do meu peito cicatrizou; conheci a Mariza com quem me casei e tudo ficou no seu devido lugar. Até que criei coragem e vim até aqui... Vim pra te pedir desculpa por tudo que fiz...
-Jéferson, não precisa...
-Karina, eu preciso pedir desculpa. Se alguma vez eu fui inconveniente me desculpe, por favor, não foi a minha intenção. Se algum dia eu te forcei a fazer alguma coisa que você não queria me desculpe. Me desculpe por ter te deixado naquele corredor à minha espera... Me desculpe por ter feito você sofrer. É por isso que vim até aqui. É por isso que estou aqui.
-Não precisava se desculpar – falou Karina e só então me dei conta que estávamos ambos chorando e muito próximos um do outro. – Foi como você disse demorei muito para descobrir o quanto eu te amava.
Karina baixou os olhos e contemplou os dedos de sua mão. Depois de uma breve pausa, completou:
-No dia seguinte à sua partida, Franco da Rocha amanheceu diferente. O pássaro que vivia na gaiola do vizinho não cantou, o dia estava cinzento, era como se a cidade soubesse que havíamos perdido alguém especial.
Reinou um silêncio melancólico a essas palavras de Karina. Do lado oposto da sala havia um aquário com quatro peixes dentro. Karina se levantou e caminhou lentamente até o aquário. Senti que precisava falar alguma coisa.
-Sinto muito por tudo que fiz – disse eu ainda perto da janela. – Confesso que me passaram muitos pensamentos pela minha cabeça, mas nenhum foi igual ao que realmente aconteceu. Não sabia que eu indo embora iria te ajudar a chagar a conclusão que me amava. Pensei varias vezes em voltar atrás... No entanto, me segurei pra não voltar, porque como você disse a vida precisava continuar.
-É verdade – falou Karina se virando para mim. Ela estava com os óculos novamente. – A vida precisava continuar... E continuou pra mim e pra você... Só o que ficou foram as lembranças do passado.
-É bom que as lembranças existam, fica como prova de que tivemos uma historia – falei me aproximando da minha amiga. – Aconteceram tantas coisas no passado, tenho saudades daquele tempo em que estudávamos. Por falar em estudar, e aí você ainda esta escrevendo como antes?
-Não. Estou envolvida demais no meu trabalho não tenho mais cabeça pra escrever.
-Pena, você escrevia muito bem.
-É verdade, mas quem sabe um dia eu volto a escrever novamente.
-Estava pensando em escrever uma historia também – falei um pouco tímido.
-Você?!
-Por que o espanto? Acha que eu não consigo escrever um livro?
-Acho. O meu espanto é que você sempre gostou de estudar o corpo humano, nunca se interessou para o lado da imaginação.
-Tem razão. Mas estava pensando em escrever um romance, não é tão difícil.
-Estou gostando de ver a sua empolgação. Por que escolheu logo um romance para começar?
-É mais fácil e...
-E?
-E... Bom, acho que tenho uma fonte de inspiração muito valiosa.
-Ah, entendi.
Reinou o silêncio. Estranho porque estávamos mantendo uma conversa gostosa e de repente veio aquele silêncio trazendo tudo que havíamos passado juntos como para dizer que algo se quebrara e aquela era a hora de tentar consertar. Mas teria como consertar o que se quebrara?
-Falando em passado – disse eu passando a mão no aquário – estava aqui me lembrando do dia em que perdi você de vista na estação de trem. Você teve que ir embora sozinha...
-Você ainda da risada, não é? – Falou Karina sorrindo. Ela voltou a sentar-se no sofá. Eu fiquei em pé tentando reunir coragem para a pergunta que precisava fazer. Acabei por fazê-la mais tarde.
-E aqueles seus amigos cegos, onde estão? – Perguntei para ganhar tempo.
-Estão por aí, espalhados por esse Brasil – Karina fez uma ligeira pausa. Notei que ela estava um pouco zangada com aquele assunto. Sem muito entusiasmo, completou: - Diante de tantas mudanças que o planeta passou, cada um seguiu o seu rumo... E os nossos sonhos ficaram enterrados...
Balancei a cabeça afirmativamente por não ter o que dizer. Karina mudou de assunto o que confirmou as minhas suspeitas de que ela não queria falar dos seus amigos.
-Jéferson você disse que se lembra do dia em que eu vim de São Paulo até aqui sozinha, certo?
-Sim.
-Pois eu me lembro do dia em que o cavalo disparou com nós dois em cima, dos marimbondos e do tombo...
-Castelinho, o nome do cavalo era Castelinho...
Caímos na risada.
-Sabe Karina, aquele foi melhor natal e o melhor revllion que passei até agora.
-Jura? – Falou Karina ainda sorrindo.
-É. Aquelas pessoas, aquele lugar tinha um clima diferente, um clima gostoso; era como se Jesus estivesse nascendo ali. Aquele assentamento é um lugar especial.
-Não mais Jéferson. Aquele assentamento se acabou. Agora lá é uma cidade, perdeu o clima gostoso de antes.
-Que chato. Estava pensando em voltar lá, fazer uma visita.
-Pois é lá mudou muito. Pra você ver quando estávamos naquela época não dávamos tenta importância para o que acontecia, no entanto, estamos aqui lembrando com saudades tudo que vivemos. Você tem razão, aquele foi um natal especial – Karina voltara a chorar. – Foi o primeiro natal que eu fiquei sem ver as luzes e os fogos...
Enquanto Karina ia dizendo estas palavras, fui chegando perto do sofá em que ela estava sentada. Sentei-me ao seu lado.
-Você descreveu os enfeites da rua, conversamos um pouco... – Karina fez uma pausa. Eu falei:
-Você disse que o natal continuava sendo motivo de reunião, esperança, alegria, renascimento, amor e perdão – falei emocionado.
-Isso mesmo. Aí vieram os fogos...
Ela se calou. Eu completei:
-Você disse o meu nome e tocou de leve com a mão no meu rosto. Uma voz feminina cantava a música “noite feliz”. A sua mão deslizou até a minha boca...
Foi a minha vez de ficar calado.
-Eu só não te beijei porque aquelas crianças passaram cantando e... quebrou todo o clima.
-Estávamos tão próximos... podia até sentir o seu cheiro... – Falei sem perceber que o rosto de Karina estava a centímetros do meu.
-Podia sentir o seu calor... – Falou ela.
O rosto de Karina chegou mais perto e então...
-Mãe!?

 

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